CADÊ MEU TEMPO? -artigo inspirado no que parece ser a nossa maior raridade

CADÊ MEU TEMPO? -artigo inspirado no que parece ser a nossa maior raridade
  • Agitação é agilidade?
  • Que ganho você tem com essa correria?

A moda agora é “estou com minha agenda lotada”; “que correria, não tenho tempo para nada”.

Digo moda porque assim como parecemos desejar estender o tempo, de forma paradoxal, nos orgulhamos desta correria. A agitação passou a ser um símbolo de sucesso. Reclamamo dela, mas nos sentimos gratificados em manifestá-la.

Moda, pois também ditamos esse padrão de comportamento, desejando emitir determinados símbolos.

Desculpem a analogia, mas por vezes, é possível vermos pessoas correndo como hamsters (aqueles bichinhos que correm em uma roda-gigante sem sair do lugar, dentro de uma gaiola).

 Apenas correm.

Será mesmo que nos falta tempo? Ou falta uma direção? Falta coragem para sermos mais autênticos?  Falta a decisão de assumirmos o risco de não pertencer à gaiola? Ou ainda, falta sabermos nos autogerenciar na dimensão tempo?

Tempo é tema complexo. Nesse artigo vamos colocar à mesa alguns aspectos.

Não gerenciamos o tempo. Gerenciamos a nós mesmos, na dimensão tempo.

-Vamos levar este “gerenciar a si mesmo” para beber água na fonte dos gregos. Vamos lá, rumo à sabedoria antiga.

A mitologia grega nos presenteou com duas dimensões do tempo. O tempo Kairós (Deus Kairós) e o Tempo Chronos (Deus Chronos).

A mitologia é uma história que, longe de ser fantasiosa, pretende explicar o mundo e o homem por meio de imagens simbólicas que guardam uma realidade mais profunda. Para compreendê-la é necessário desprender-se da superficialidade e buscar o que ela abriga.

Chronos é o deus do tempo cronológico ou seqüencial. É o rigor das horas, dias, anos. Rigor da idade. – Desse Chronos entendemos muito bem!

É o tempo corrente, rotineiro, ordenado pelo relógio, onde um minuto é igual ao outro.

Costuma ser representado como um velho tirano, controlando o tempo desde o nascimento até a morte. Ele dita aos mortais o que deve ser realizado, prazos, datas. Ele é a âncora das metas.   – Ahhhh… quanta dor de cabeça com as metas.

O nome desse deus produziu a palavra cronômetro.

Kairós é outro departamento. Jovenzinho. Surfa outra onda. Esse deus é um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece. É a experiência, o tempo interno. É tão ágil que seguido passa despercebido.

Qual o tempo da sensação de um abraço? O tempo da saudade? O tempo interno de uma palestra interessante e o de uma palestra sem nenhuma novidade?

Qual o tempo de um encontro onde podemos falar dos nossos medos, sem pressa? O tempo de uma viagem divertida com amigos e outra com pessoas desagradáveis?

O Chronos pode ser o mesmo e a grande diferença estará no Kairós.

Kairós nos oferece a percepção do momento e do inusitado. É com Kairós que nos permitimos perceber o extraordinário. Nele está a nossa potência de criação. Criação do verdadeiramente novo. Criação da atitude de sair daquela gaiola. – Sim saída da gaiola, pois ninguém aqui nasceu para ser hamster. Se entrou nessa moda, cuidado, saia logo!

Os gregos antigos tinham essas duas formas de compreender o tempo: Chronos e Kairós. Um luxo!

Algumas pessoas são mais apegadas ao tempo, aos protocolos, planejam de forma cronológica e buscam executar exatamente conforme o seu planejamento. A sua grande referência é o Chronos.

Esta dominação do Chronos pode escravizar, engessando a vida numa busca incessante por controle. Um busca que sem chegada. Percebem a neurose?

A supremacia do tempo cronológico na regulação da experiência pode nos tornar temerosos a tudo que foge à ordem pré-estabelecida.

Mais do que isso, ao priorizarmos Chronos, corremos o risco de sufocar o potencial de Kairós na nossa subjetividade, negando à consciência o espaço necessário para certa fluidez no planejado, produzindo o fora da ordem, fora da repetição. 

Assim, quando relegamos Kairós ao obscurantismo, Chronos emerge como um rei absoluto. Soberano passa a reinar ceifando nosso tempo de viver, devorando os dias e as experiências nele vividas. 

Kairós, por ser muito rápido, por vezes fugaz, precisa ser pego de frente pelo tufo de cabelo. Assim reza a lenda!

Precisa ser pego pelo tufo de cabelo na hora em que ele se apresenta. Pego no aqui e agora. Pego na presença, pois logo ele escapa.

Kairós é a oportunidade! Simplesmente acontece. É o imprevisível que encanta (ou desencanta).

O tempo interno e essencial que nos deixa uma impressão única onde ancoram nossos passos na estrada existencial.

Em Kairós somos humanos. Vivemos.

Ele nos convidada ao despojamento da doentia cronologia para vivermos de forma mais leve e autêntica. Um convite!

A questão é, ao tiranizarmos Chronos, nos colocando como suas vítimas e idealizando Kairós, acessamos um atalho ilusório. Tão ilusório quanto uma fuga pueril, como um adolescente que se rebela desejando sair da casa dos pais, sendo ainda, sustentado por eles. Tiranizar Chronos seria mais uma armadilha dentre tantas que já criamos.

Na verdade, somos sustentados por ele. Que bom! Chronos nos organiza como indivíduos e comunidade. E ele não é uma escolha. Está posto. Ele é.

É provável que Kairos seja a escolha, por isso carrega tanta potência e fragilidade.

Assumir a complexidade deste jogo de forças internas, como dimensões poderosas que precisam se alimentar mutuamente é responsabilizar-se pela cocriaçao do seu tempo, do seu Templo, da sua vida.

Você deseja essa responsabilidade? Você pode?

#Tempo não é dinheiro     #Tempo é tempo   #Pronto para ser Vida

É um aprendizado e para alguns é um REaprendizado, pois têm na sua memória os instantes vividos em plenitude. Para os que têm essa memória, pergunto: -qual o cheiro desses instantes? Emoções? Sensações? Quais? Qual o silêncio?

Não vamos idealizar. Essa escolha pode ser apenas uma travessia de reencontro. Apenas?

Não significa abrir mão das conquistas, do sucesso, do frénésie. Isso tudo é ótimo!

É compreender que isso é apenas uma parte de você. Sua potência é muito maior!

#potência para saber desejar       #potência para realizar       #potência para desenvolver outras potências

De qualquer forma, se nos ofertamos este tempo, aqui e agora, nesse breve instante de leitura, absorvendo o impacto dessa reflexão e integrando-a aos nossos aspectos existenciais, para muito além do cognitivo, então…, aqui vivemos Kairós!

E eu fico por aqui, já com o próximo artigo sobre o Tempo pronto. Doidão prá sair na avenida!

Gratidão aos gurus que me inspiraram neste ensaio: Gregos A.C., Nietzsche, Morin, Monet, povo do Mindfulness e Susan Andrews.

 

Por Andréa Ribas,

simplificadora de mudanças, diretora da Estação Oito 
-um espaço e tempo para ampliação da consciência e reconhecimento da energia, gerando força para a ação-

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