Edgar Morin: a complexidade e o pensamento complexo

Edgar Morin: a complexidade e o pensamento complexo
 Nedio Seminotti: nedio.seminotti@gmail.com
Andréa Ribas: andrea.ribas@estação8.com.br

“Ordem, desordem e organização”, é o esquema com o qual Morin traduz a passagem da simplificação para complexidade do mundo e do conhecimento.

A ‘ordem’ é aquilo que está posto e é tido como verdade absoluta a ser obedecida. Por exemplo, a bíblia, leis da ciência, conjunto de crenças e regras de determinada cultura, modos de gestão com base na hierarquia etc. Por exemplo, quem tem as funções da gestão e conhece as respostas, organiza os planos da empresa e ordena a execução. Saber e poder caminham juntos. Assim como os pressupostos do saber caminham juntos com os pressupostos do poder.
Na ‘ordem’ há uma suposição de que há determinismo, estabilidade, objetividade, regularidade, portanto, certezas. É o ordinário e a previsibilidade, o que garante certo controle e rotina à organização. É a estabilidade que produz e também se alimenta da convergência. Do ponto de vista de um sistema é o que dá uma estabilidade mínima para contemplar a desordem e a reorganização.
A ‘desordem’ é o que não está inscrito na rotina, são os atravessamentos externos e o inusitado, representando a divergência que, ao mesmo tempo nasce representando a emergência do novo (uma consequência dos movimentos organizacionais) também se manifesta como uma das causas para outras des-estruturas do tecido cultural da organização. É o não controle e carrega o extra-ordinário e o impensado. Ela é obtida, também, pelo pensar crítico que recebe as determinações da ‘ordem’ e, pela reflexão ou intuição do sujeito em sua prática cotidiana, imprime algo novo à rotina, improvisa, inova, des-estrutura a ordem, produzindo outros fazeres e outras lógicas do pensar e do sentir.

“Organização” é a palavra que traduz o modo de conceber o mundo complexo.
“ … a organização é aquilo que constitui um sistema a partir de elementos diferentes; portanto ela constitui, ao mesmo tempo, uma unidade e uma multiplicidade” (Morin, 2002, p.180).
Pensar em complexidade significa considerar ordem, desordem e organização, movimentos que se integram, se contrapõem e se complementam.

Sobre a complexidade sistêmico-organizacional:
“Preferí hablar más de organización do que sistema para insistir sobre lo que vincula la totalidad y las partes. Y esto me llevó a otorgar un lugar capital a la noción de emergencia”. Esta noção vai nos ajudar a entender melhor a organização sistêmica”. (Morin, 2010, Mi Camino, p. 170)

Antes de continuar esclarecendo o sentido de organização é necessário dizer algumas palavras sobre a noção de sistema. Morin (2002) assinala que a ideia sistêmica vem de há muito nas ciências. Desde o século XVIII, por exemplo, se considera a ideia do sistema solar e depois, no XIX, também o corpo humano é concebido como um organismo.

A Teoria Geral dos Sistemas de Von Bertalanffy, bem conhecida publicada em 1950, é baseada apenas na ideia de um sistema aberto, assinala Morin e, segundo ele, é insuficiente, pois sendo apenas aberto tende a um holismo que leva a uma simplificação semelhante ao que fez a ciência da Modernidade. Não havendo fronteiras num sistema aberto que delimite um sistema específico no qual se quer intervir/estudar corre-se o risco de uma confusão e imprecisão na delimitação do campo. Na cibernética de segunda ordem, ou cibernética social ou, ainda, cibernética dos ‘sistemas observantes’, como a denominou Foerster, é indispensável que o sistema em consideração seja descrito por um observador (coerentemente com o nome de sistema observante) que o distinga dos demais sistemas, considerando e respeitando suas fronteiras, para estudar/intervir e descrever (FOERSTER, 1996).

Voltando a Morin, ele argumenta que o pensamento sistêmico complexo é, ao mesmo tempo, fechado E aberto. Nos intercâmbios sistêmicos, indispensáveis à transformação e regeneração do sistema e, portanto, para conservação da vida, os sistemas abrem-se ou se fecham para trocas eletivas de energia, informação e organização e, quando fazem os intercâmbios, se fecham para processá-los. Este princípio se complementa com o de sistemas autônomos E dependentes. Quer dizer, sistemas que para se tornarem autônomos dependem de outros sistemas: são sistemas interdependentes, como os indivíduos humanos que, mesmo dependentes, se distinguem dos demais e têm autonomia. Mais do que isso, a autonomia se constitui referendada na dependência.
E é neste intercâmbio e processamento que surgem as denominadas emergências. Morin, como vimos, dá destaque às emergências porque as inter-relações e organização dos elementos distintos geram propriedades nos elementos que não existiam separadamente e daí, repetimos, surge a auto-organização e a autoprodução.

O conceito de ‘organização’ nos oferece uma contraposição ao pensamento do Projeto da Modernidade, pois não concebe a realidade como algo absoluto/autônomo (que não dependente de nada), objetiva e previsível.
Nas ciências da Modernidade uma unidade qualquer como indivíduos, órgão, células e moléculas, por exemplo, podem ser estudadas isoladamente. Dissecando um tecido ou isolando um indivíduo num laboratório para ver como se comporta diante de estímulos. Muitas pesquisas publicadas cotidianamente têm este procedimento. É uma lógica de análise que desmembra a realidade em seus componentes básicos.

Um exemplo de pesquisa que não segue este procedimento é o relatado por Susan Pinker no Fronteiras do Pensamento, em 2017. Ela foi viver na ilha da Sardenha pra compreender, através de um estudo antropológico (embora seja Psicóloga), as diferenças entre as mulheres e homens que têm longevidade acentuada. Neste estudo há uma convivência com sujeitos da pesquisa em seu contexto sócio histórico e, como consequência, amplia-se a compreensão, especialmente pela maior riqueza de informação e comunicação e não isenção do observador/pesquisador que se respalda, também, na experiência pessoal de convivência para compreender a realidade dos sujeitos da pesquisa.
Quer dizer, para conhecer a realidade, segundo a ciência da Modernidade (que é executada como procedimento rotineiro de pesquisa e reconhecido pela ciência de hoje) é preciso isolar o objeto de estudo, definir as variáveis a serem controladas e o pesquisador deve ter isenção: um objeto bem definido, iluminado e em campo isolado pode ser bem analisado (dividido em suas partes elementares) e conhecido.

A complexidade contemporânea e o pensamento complexo de Morin, no entanto, leva em conta alguns princípios como: organização sistêmica; autonomia e dependência; abertura e fechamento dos sistemas; contexto e história do campo/sistema de estudo; a dialógica, ou seja, as distintas lógicas do todo, das partes, do contexto e da história; e a hologramaticidade que supõe que quase tudo da parte está no todo e vice-versa (MORIN, 2008).

O mundo não é absoluto (mesmo o universo, ao se conhecer outros sistemas, além do solar, depreende-se que a terra tenha interconexão e influencias deles), mas relativo, fortemente influenciado pelo observador e o contexto. A realidade complexa germina e passa a ter consistência a partir das relações recursivas, paradoxais, ambíguas entre as partes e o todo (efeitos são causa para novos efeitos que serão causa para…).

No campo do trabalho o ambíguo se manifesta como uma potente complementaridade, como por exemplo, nas situações em que o profissional liderado também ocupa lugares de liderança pelo seu conhecimento e experiência.

A ‘ordem’ e o saber absolutos que estão na bíblia, nas teorias científicas e nas práticas tradicionais de gestão e de pesquisa e que fazem parte respectivamente do Teísmo, do Humanismo e do Imaginário construído nas redes intersubjetivas (HARARI, 2017), determinam o escopo de uma teoria, mas não um conhecimento. A teoria só ganha vida, gera conhecimento com “o pleno emprego da atividade intelectual do sujeito” (MORIN, 2002, p.334). Quer dizer, com a intervenção estratégica das pessoas em inter-relação no campo/contexto de trabalho e pesquisa.
A antiga cultura do pensamento dava uma vida independente aos mitos e aos deuses que criava. A doença moderna da mente está na hipersimplificação que não deixa ver a complexidade do real. A doença da ideia está no idealismo, onde a ideia oculta a realidade que ela tem por missão traduzir e assumir como a única real. A doença da teoria está no dogmatismo, que fecha a teoria nela mesma e a enrijece. A doença da razão é a racionalização que encerra o real num sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral, e que não reconhece que uma parte do real é irracionalizável e que a racionalidade tem por propósito dialogar com o irracionalizável.

As organizações ganham mais vida com a manutenção da importância do intelecto, sem reduzi-lo às verdades individuais, mas também desenterrando, acolhendo e integrando outras dimensões paradoxais e pouco controláveis, como os afetos, a espiritualidade, a transcendência… e as emergências que surgem nesse emaranhado e que não encerram os movimentos.

Enfim, ao mergulharmos no paradigma proposto por Morin, somos provocados a pensar e sentir a existência humana sem simplificações reducionistas, mas também sem tornar complicado e, por tanto, menos acessível a aventura que se apresenta como complexa. E esse é um grande desafio.

Esperamos ter contribuído. 

Referências
BACHELARD, G. O Novo Espírito Científico. São Paulo: Câmara Brasileira do Livro, 1978. (Série Os Pensadores).

FOERSTER, H. Sistema Autoorganizadores y sus Ambientes. In: Pakman, M. Las Semillas de la Cibernética. Barcelona: Gedisa, 1996.

HARARI, Y. Homo Deus. São Paulo. Companhia das Letras, 2017.

MORIN, E. Mi Camino. Barcelona: Gedisa, 2010.

MORIN, E. A Cabeça Bem-Feita. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

MORIN, E. O Método 1: a natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2003.

MORIN, E. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

SEMINOTTI, N. A vida humana organizada em redes e em estruturas hierárquicas: considerações sobre paradigmas que as sustentam. In: RIVERO, Nelson E.E. et. al. (org.); Redes: força de produção em um serviço escola. Projeto de Atenção Ampliada à Saúde (PAAS); Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo: Casa Leiria, 2017. p. 97-108.

SEMINOTTI, N.; ALVES, M. El pequeño grupo como un sistema complejo auto-organizado y extra-organizado. In: CAPARRÓS, N.; ROCHE, R. C. Viaje a la complejidad. Madrid: Biblioteca Nueva y México/Argentina: Siglo XXI, 2013.

WIENER, N. Cibernética e Sociedade: o uso humano de seres humanos. São Paulo: Cultrix, 1950/1954.

 

Porto Alegre, janeiro de 2018.

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