Estamos sabendo desejar ou apenas seguindo a moda dos desejos? – por Andréa Ribas

Estamos sabendo desejar ou apenas seguindo a moda dos desejos? – por Andréa Ribas

Sísifo foi condenado a, eternamente, levar uma pedra até o alto da montanha e vê-la rolar até o chão.  

Quem foi Sísifo?

Na mitologia grega, Sísifo era considerado o mais astuto de todos os mortais, mestre da malícia e da felicidade. Mestre de uma felicidade esfuziante, esperta, constituída à custa do descumprimento de regras e acordos. Uma malandragem antiga.
Em um momento de grande orgulho de sua astúcia em tangenciar acordos, acabou sendo descoberto. Sísifo, então, foi condenado à repetição de algo desprovido de sentido por toda a eternidade. Um castigo escolhido pelos Deuses por ser considerado o pior de todos, inclusive pior do que a morte.

Com maior ou menor liberdade que a persona Sísifo as nossas repetições vão desenhando o nosso cotidiano, fato este que não significa problema algum. O cotidiano é realmente feito de atitudes que se repetem.

A questão em análise está além da repetição de um inocente cotidiano, mas no seu condicionamento sem reflexão. No condicionamento do que está por trás destas ações. No condicionamento coletivo dos DESEJOS. 
Observem como os mesmos desejos de TER se repetem entre as pessoas. Os mesmos desejos de SER também se repetem entre as pessoas.
Desejos de serem iguais. Desejos de realizar os mesmos movimentos do coletivo, gerando segurança e pertencimento, mas também terceirizando a responsabilidade pela reflexão que produzirá maior discernimento para a definição do rumo a ser trilhado.
Não colocando compromisso com a reflexão, acabamos terceirizando a tomada de decisão madura e, portanto, a responsabilidade pelos seus resultados.
Um ciclo tão repetido coletivamente, que pouco o percebemos. Ele enfraquece a nossa potência de sermos verdadeiramente autênticos, massificando nossos desejos e, por conseqüência, suas manifestações.
E é dessa forma que nos engajamos nos modismos. Não me refiro somente às modas da estética. Refiro-me ao modismo das profissões, dos métodos de gestão, das frases conceituais. Modismo, como movimento coletivo de uma época, que esvazia o sentimento de co-responsabilidade pela produção do cenário desejado. Com ele, nos colocamos no status de seguidores, mesmo sem termos clareza do que exatamente estamos seguindo. Assim é o movimento massificado e desprovido da real diferenciação.
Gera angústia. Sim, muita angústia, pois no fundo, em algum lugar interno, coabitam o conforto e o desconforto de “ser multidão”. De ser “quase igual”, pois existe o ganho, mas também existe a perda.
No íntimo, neste mesmo lugar interno, existe um potencial imenso de desejo de identidade. Desejo de desejos próprios. Desejo de desejar, discernir e de realizar.

O potencial de identidade própria acomoda-se, gradativamente, ao tamanho que lhe é concedido. E este potencial reprimido passa a conviver com seus iguais.
Por fora, tudo controlado.
Por dentro, convive-se silenciosamente com essa adaptação, enfrentando desconfortos que se manifestam hora no corpo e hora nas emoções.

Mas a vida segue. Ela é correria – lembram no Chronos?
Seguimos com a multidão. Para sermos a multidão. Para levarmos a pedra lá em cima. Afinal, a maioria leva. A multidão leva. E leva todos os dias.

Quais as pedras insistimos em levar e levar… ao alto da montanha, pois assim pertencemos ao contexto? Faz sentido manter esse movimento? Faz? É preciso perguntar.

A coisa é complexa mesmo. Mas não precisa ser complicada. Edgar Morin nos salva lembrando-nos que a palavra Complexo vem do latim, Complexus, significando tecido em conjunto, intrincado, rede de causas e efeitos que se misturam caracterizando um tecido aparentemente único. Complexo não significa Complicado. Morin no salva!
Se não precisa ser complicado, não vamos complicar.

Reconhecer esta complexidade é perceber a confluência de fatores culturais e emocionais e, para este mergulho, precisamos nos distanciar, sair do centro e do “status multidão”. Precisamos nos colocar em um tempo-espaço interno. Um templo reflexivo para além da superficialidade da reflexão apenas racional. A reflexão profunda é existencial e esta sim, promove saltos. Chega a reverberar no corpo.
Rubem Alves nos ilumina sobre esta reverberação, lembrando que quando tomamos consciência profunda de algo que nos é caro, até o corpo reage. Agita-se. Como se quisesse dar um salto a frente. Mente-corpo-emoções reagem em um único movimento.
São momentos raros, mas não precisam ser tão raros assim.

As pedras que rolam também podem simbolizar a procrastinação, ou seja, o adiamento das decisões de importante impacto. A procrastinação acumula não somente tarefas, mas também acumula energia interna, pois guarda em si a repetição dos mesmos fluxos de pensamentos e padrões emocionais.

Uma ilustração real sobre o equívoco entre o desejo autêntico e a ação condicionada.

Um empresário procurou-me manifestando estar decidido a abrir uma segunda empresa. Sua atual empresa tem grande produtividade e excelente desempenho econômico-financeiro, ainda assim ele havia definido que, em 1 ano, deveria inaugurar seu próximo negócio. Sendo ele um empresário experiente e dinâmico não conseguia compreender o porquê da sua grande dificuldade em colocar foco e empenho suficiente em seu novo empreendimento.
Durante nossos diálogos ele revelou (para ele próprio) o que realmente desejava: sentir paz.

Essa é a complexidade de sair do automático e enfrentar profundos desejos que aparentemente representam um conflito com o caminho escolhido. A decisão não necessita ser a exclusão de uma parte. Pelo contrário, a consistência se revela no enfrentamento do paradoxo. Integrar paz e empreendedorismo, pode ser possível para algumas pessoas. Para outras, o melhor pode ser escolher uma delas.
As possibilidades são várias e são desenhadas com grande consistência na medida em que a pessoa aprende a fazer o seu caminho, escutar a sua voz e acolher os seus desejos. Aprende a sair do automático. Aprende a estar integrado ao sistema sem se perder nele.

A busca pelo alto desempenho torna-se mais potente quando acompanhada da autorealização.

É preciso coragem e acolhimento para assumir a liberdade interna de ir além do modo FAZEDOR Humano, resgatando-se como o SER Humano.
Por quê?
Porque a lógica da eficácia já não é mais suficiente. É preciso incluir sabedoria.

E fica a pergunta: estamos sabendo desejar ou apenas seguindo a moda dos desejos?
Precisamos de potência para realizar os desejos, mas antes disso, precisamos de potência para discernir o que realmente desejamos, o que nossa alma ou nosso ser mais íntimo deseja.
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Este texto foi inspirado nos gurus da mitologia grega, em Camus, Edgar Morin, Rubem Alves, Susan Andrews e nos meus clientes. Gratidão a toda essa gente!

Andréa Ribas
Mentora de executivos, especialista em gestão organizacional e desenvolvimento humano. Diretora da Estação Oito – um espaço de ampliação do discernimento e reconhecimento da energia gerando força para a ação.

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